As crianças sequestradas e adotadas ilegalmente por militares durante a ditadura brasileira
Edison VeigaDe
Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil (21 março 2019)
Sequestrada
assim que nasceu, Rosângela Paraná diz que sua certidão de nascimento foi falsificada
Pelo menos 19
crianças foram sequestradas e adotadas ilegalmente por famílias de militares ou
famílias ligadas às Forças Armadas durante a Ditadura Militar do Brasil
(1964-1985) - em um mecanismo similar ao ocorrido em outros regimes militares
sul-americanos do período, segundo o livro Cativeiro Sem Fim (Ed.
Alameda), que será lançado no próximo dia 2 de abril.
Seu autor, o jornalista Eduardo
Reina, diz que todos os casos foram escondidos, ocultados e negados ao longo
dos últimos 34 anos.
"Até agora, identifiquei e
comprovei 19 casos de sequestros e/ou apropriação de bebês, crianças e
adolescentes durante a ditadura no País", afirma o jornalista, que teve
apoio do Instituto Vladimir Herzog para fazer a investigação.
"Todos guardam semelhanças com
crimes desse tipo ocorridos na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia
durante períodos de repressão militar."
Eduardo Reina identificou 19 casos de sequestros e
apropriação de bebês em seu livro
Dos 19 casos identificados até agora,
11 são ligados à guerrilha do Araguaia, movimento guerrilheiro de oposição ao
regime que ocorreu entre o final da década de 1960 e o ano de 1974 na Amazônia.
"As vítimas são filhos de guerrilheiros e de camponeses que aderiram ao
movimento. Era o segredo dentro do segredo", diz Reina.
.
Esses 11 casos, conforme descobriu o
jornalista, foram realizados entre 1972 e 1974. Um dos casos reportados no
livro é o de Juracy Bezerra de Oliveira. Quando ele tinha 6 anos, foi retirado
de sua família pelos militares. Por engano.
"Pensavam que ele era Giovani,
filho do líder guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão", conta o
pesquisador. "Em comum com Giovani, Juracy tinha a pele morena, a idade
aproximada e o nome da mãe biológica, Maria."
Juracy foi levado de sua
família aos seis anos, por engano
Conforme apurou o jornalista, Juracy
foi levado para Fortaleza pelo tenente Antônio Essilio Azevedo Costa. Acabou
registrado em cartório com o nome do militar como seu pai biológico. "O
nome da mãe, entretanto, foi mantido: Maria Bezerra de Oliveira", conta
Reina.
Ele viveu em Fortaleza até completar
20 anos. Depois voltou ao Araguaia em busca da mãe verdadeira. "Juracy
também teve o irmão mais novo - Miracy - levado por outro militar. O sargento
João Lima Filho foi com Miracy para Natal. Anos depois, Juracy e a mãe fizeram
buscas pelo menino. Não foi encontrado", relata o autor do livro.
"A mágoa que tenho deles, dos
militares, é de terem me tirado da minha família biológica. Hoje em dia meus
irmãos têm terra, gado. Eu tenho nada. O Exército tinha prometido me dar meio
mundo e fundos. E não deu", desabafa Juracy.
Mas Giovani, o filho do Osvaldão,
também teria sido encontrado pelos militares. Na operação que terminou com a
morte da mulher do guerrilheiro, Maria Viana, os militares encontraram e
levaram Giovani e Ieda, outra filha dela.
"Eu tinha seis anos. Quando
cheguei no nosso barraco tinha acontecido isso. Eles tinham matado minha mãe e
carregado o irmão meu, mais minha irmã, que sumiu também", relata Antônio
Viana da Conceição, filho de Maria e irmão de Giovani e Ieda - que nunca mais
foram encontrados.
Eduardo
Reina percorreu mais de 20 mil quilômetros em busca dos personagens
sequestrados pelos militares
Pesquisa
Em entrevista à BBC News Brasil, o
jornalista Eduardo Reina conta que estuda o tema há pelo menos 20 anos.
"Mas não conseguia deslanchar pela falta de provas e testemunhos
concretos", diz ele. Em 2016, decidiu ir a campo em busca de relatos
concretos e de documentos.
"Percorri mais de 20 mil
quilômetros em território brasileiro em busca dos personagens sequestrados
pelos militares ou seus familiares. Acessei milhares de documentos militares,
oficiais ou secretos. Tive acesso a muitos documentos considerados secretos no
período de ditadura no Brasil", enumera.
"Nesse período, realizei mais de
uma centena de entrevistas. Li mais de 150 livros sobre a ditadura, além de
teses de doutorado e dissertações de mestrado, artigos acadêmicos, matérias de
jornais. Pesquisei mais de 4 mil edições dos jornais O Estado de S.Paulo, Folha
de S.Paulo, O Globo e Estado de Minas à procura de matérias sobre o tema, além
de outras leituras de artigos e documentos."
Depois de muita checagem e cruzamento
de informações, Reina conclui que ao menos os 19 casos relatados no seu livro
são reais.
Reina procurou as Forças Armadas mas
elas não quiseram se manifestar sobre os casos identificados.
"Instituições envolvidas mantêm a posição de negação. Assim como se nega a
prática da tortura e do assassinato nos porões do DOI-CODI, nas bases
militares, nos quartéis e nas prisões", diz o jornalista.
"A divulgação desses 19 crimes
hediondos, que não prescrevem, deve ser feita para que a história da ditadura
do Brasil seja contada sob o olhar de todos os envolvidos. E tomara que a
comunicação desses sequestros de bebês, crianças e adolescentes pelos militares
leve outras pessoas a revelarem o que sabem e novos casos possam ser
identificados."
A reportagem da BBC News Brasil
também solicitou esclarecimentos às Forças Armadas, por meio da assessoria de
comunicação do Ministério da Defesa. Até o fechamento desta reportagem,
entretanto, eles não se posicionaram.
Rio
Araguaia na região onde guerrilha de mesmo nome se organizou na época da
ditadura
Camponeses
Entre novembro de 1973 e o início de
1974, seis filhos de camponeses aliados aos guerrilheiros do Araguaia teriam
sido sequestrados, segundo informações descobertas por Reina. José Vieira,
Antônio José da Silva, José Wilson de Brito Feitosa, José de Ribamar, Osniel
Ferreira da Cruz e Sebastião de Santana. "Eram todos jovens, adolescentes
que trabalhavam na roça para o sustento de suas famílias. Foram enviados a
quartéis", conta o jornalista.
José Vieira é filho de Luiz Vieira,
agricultor que foi morto pelas forças militares durante a guerra no Araguaia.
José foi preso junto com o guerrilheiro Piauí, então subcomandante do
Destacamento A, em São Domingos do Araguaia.
"Sai de lá com o Piauí. Ele era
o comandante dos guerrilheiros. Eu fiquei lá e a tropa chegou e me cercou.
Soube que eu tinha ido lá para falar com minha mãe. Mas antes de minha mãe
chegar em casa, a tropa cercou. Aí me pegaram. Eu mais ele, o Piauí",
descreve Vieira.
Piauí, apelido de Antônio de Pádua
Costa, ex-estudante de Astronomia da UFRJ, é listado como um dos guerrilheiros
"desaparecidos", após ser capturado no inínicio de 1974. A essa
altura, o Exército havia enviado milhares de soldados para caçar os cerca de 80
guerrilheiros que se esconderam na mata no sul do Pará. Segundo o relatório da
Comissão da Verdade, setenta deles foram mortos ou executados na selva.
O nome de Vieira, nascido em 1956,
está registrado em documentos do Centro de Informações do Exército (CIE) junto
com os nomes dos outros cinco filhos de camponeses sequestrados pelos militares
entre o fim de 1973 e o início de 1974. Era a fase mais grave de repressão à
guerrilha do Araguaia.
"Inicialmente, Vieira ficou
preso e foi torturado na base de Bacaba, erguida no km 68 da Transamazônica.
Depois foi levado para o quartel general do Exército em Belém do Pará; onde
passou um mês e 12 dias. Depois foi para a 5ª Companhia de Guardas, no bairro
de Marambaia, também em Belém. Na sequência foi transferido para
Altamira", narra Reina.
José Vieira é filho de agricultor morto pelas
forças militares durante a guerra no Araguaia; ele foi preso e depois
incorporado ao Exército
Foi ali que ele acabou incorporado ao
Exército. Tornou-se soldado em 5 de março de 1975, serviu no 51º Batalhão de
Infantaria de Selva, conforme aponta seu certificado de reservista.
Um garimpeiro chamado Dejocy Vieira
da Silva, que mora em Serra Pelada no Pará, conta que foram 11 as crianças
sequestradas naquela época. Eram filhas de guerrilheiros com camponesas e
filhos de camponeses que aderiram à guerrilha do Araguaia. Dejocy esteve
inicialmente com os comunistas do PCdoB. Depois, durante combate na selva com
militares, levou tiro. Sobreviveu, mas ficou com sequelas. Então se bandeou
para o lado do major Sebastião Curió e passou a ajudar o Exército.
Dejocy confirma a existência de ordem
para sequestrar e desaparecer com os filhos dos guerrilheiros e de camponeses.
Afirma se lembrar da história do sequestro de Giovani, filho do líder dos
guerrilheiros, Oswaldão. Não presenciou o crime. Diz que foram realizadas em
segredo as operações de sequestro dos filhos de guerrilheiros e de lavradores.
"Fizeram tudo às caladas", diz o garimpeiro-guerrilheiro.
O sequestro de bebês, crianças e
adolescentes filhos de militantes políticos ou de pessoas ligadas a esse grupo
tinha como objetivo difundir o terror entre a população; vingar-se das
famílias; interrogar as crianças; quebrar o silêncio de seus pais, torturando
seus filhos; educar as crianças com uma ideologia contrária à dos seus país,
além da apropriação das vítimas.
Em busca dos pais biológicos
Para Eduardo Reina, um "caso
emblemático" do modus operandi dos
militares é o de Rosângela Paraná. "Ela foi pega assim que nasceu, no Rio
Grande do Sul ou Rio de Janeiro. Acabou entregue a Odyr de Paiva Paraná,
ex-soldado do Exército pertencente a tradicional família de militares. Seu pai
- Arcy - foi sargento; e seu tio-avô Manoel Hemetério Paraná, médico que chegou
ao posto de major e ex-superintendente do Hospital Geral do Exército em Belém
do Pará", conta o jornalista.
"Odyr manteve relações de trabalho,
através de prestação de serviços, com o ex-presidente da República e general
Ernesto Geisel. Foi seu motorista por algum tempo no Rio de Janeiro. Também
trabalhou na Petrobras e Ministério de Minas e Energia", prossegue.
Foi somente em 2013, após uma
discussão em família, que Rosângela descobriu que havia sido sequestrada.
"Sua certidão de nascimento é falsificada, foi registrada em 1967 em
cartório no bairro do Catete, no Rio. O documento aponta 1963 como ano de seu
nascimento", conta Reina. "A certidão apresenta como local de
nascimento um imóvel numa rua no bairro do Flamengo. Mas levantamento em
cartório demonstra que a casa citada na certidão pertence a autarquia de
previdência dos servidores públicos desde 1958."
Rosângela segue em busca de seus pais
biológicos. Debilitada física e emocionalmente, ela conversou com o autor do
livro. "Hoje vivo na angústia de não saber quem sou, quantos anos tenho, e
sequer saber quem foram ou quem são meus pais. Todos se negam terminantemente a
falar sobre esse assunto. Só desejo saber quem sou, e onde está a minha
família. Acredito que esse direito eu tenho, depois de sofrer tantos anos. Hoje
só sei que sou um ser humano que nada sabe sobre seus pais. Desejo
Justiça", diz ela.
Rosângela
foi sequestrada na década de 1960 e hoje busca sua verdadeira família
"A família Paraná fez um pacto
de silêncio para que não se fale o nome dos pais biológicos ou de onde a bebê
veio", conta Reina. "Odilma, irmã de Odyr, o pai adotivo já falecido,
confirma apenas que Rosângela foi adotada e que a mãe 'era uma
baderneira'."
Reina comenta que o objetivo de seu
trabalho "é puramente jornalístico e histórico". "Dar voz
àqueles que foram esquecidos à força, invisibilizados pela história e pela
mídia. Contar a verdadeira história da ditadura no Brasil, no período entre
1964 e 1985, sem filtros ou pendências de narrativa."
"É mostrar a verdade. Mostrar a
realidade. Mostrar a história de pessoas que foram jogadas no buraco negro da
história do Brasil. De pessoas que foram usadas pelas forças militares na
ditadura. Mostrar as histórias de pessoas que vivem num cativeiro sem
fim."
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