Os jornalistas da
CNN em inglês usam constantemente o termo "extrema direita" para
se referir ao presidente Jair Bolsonaro, e já se referiram a ele como
"um político brasileiro conhecido por seus pronunciamentos misóginos,
racistas e homofóbicos".
Anunciada nesta semana, a CNN Brasil deve seguir um caminho bem diferente,
ao menos se depender do histórico dos seus dois sócios. Um deles é Douglas
Tavolaro. Coautor da autobiografia do seu tio, o pastor Edir Macedo, foi
ele o responsável pela aproximação entre o líder da Universal e Jair
Bolsonaro. Antigo vice-presidente de jornalismo da Record, ele esteve por
trás das entrevistas laudatórias feitas pela emissora com Bolsonaro durante
a campanha.
O outro sócio do novo canal será o empresário mineiro Rubens Menin,
fundador da MRV, a maior empresa de construção civil do país. Líder no
Minha Casa Minha Vida, a empresa também conta com um histórico de trabalho
escravo em suas obras, e uma participação no lobby contra o combate ao
crime no Brasil.
Assim como Tavolaro, Menin teceu diversos elogios a Bolsonaro, aos generais
do seu governo e até à proximidade com seus filhos. Assim como Bolsonaro,
Menin mistura família e negócios, e hoje seu filho Rafael comanda a sua
empresa. "A participação da família de forma profissional, legítima e
justa é salutar na vida das empresas. Bolsonaro está demonstrando que na
política isso também é possível", disse ele em entrevista ao Correio Braziliense,
após afirmar que os empresários são "eufóricos" com o futuro sob
o novo presidente.
Menin esperou a eleição passar para poder se posicionar sobre a contenda
presidencial. Consciente de que o risco político não pode atrapalhar os
seus negócios, já doou para candidatos de cargos inferiores de vários
partidos, mas só começou a elogiar Bolsonaro um mês após as eleições. A
assessoria de imprensa da CNN Brasil negou que essa posição política do
dono haverá qualquer influência em seu canal.
Menin, que foi extremamente próximo dos três últimos presidentes
brasileiros, agora está fazendo movimentos para se aproximar de Jair
Bolsonaro. É um homem ligado ao poder, esteja ele na mão de quem
estiver.
A CNN Brasil começará sua operação na segunda metade de 2019, e pretende
contratar 400 jornalistas, um número impressionante para o atual mercado do
jornalismo por aqui. Uma nota à imprensa afirma que a CNN Brasil terá total
independência, mas poderá passar o conteúdo produzido em outras línguas.
Não foi a primeira tentativa de trazer o canal para cá, mas aquelas feitas
nos últimos vinte anos fracassaram.
Trabalho Escravo
A CNN mantém, desde
2011, o Freedom Project, um projeto dedicado a "jogar luz
sobre a escravidão contemporânea". Ele tem entre seus objetivos
"amplificar as vozes dos sobreviventes" e "responsabilizar
governos e empresas". Na sua descrição, afirma que "a escravidão
não é coisa do passado.”
Em 2019, a escravidão perdura, mas a posição da CNN parece ter mudado ao
conceder o uso da marca a Menin. Sua construtora foi colocada na
"lista suja" do trabalho escravo por violações em três locais de trabalho
diferentes. Mais do que apenas uma mancha de reputação, a lista impedia que
as empresas contraíssem empréstimos do governo.
Quando a MRV foi colocada na lista, Menin defendeu
veementemente sua empresa e começou a trabalhar obstinadamente para
atrapalhar a luta do Brasil contra o trabalho escravo. A Abrainc, uma
associação de incorporadores liderada por Menin, entrou com um processo no
Supremo Tribunal Federal para suspender a lista.
O pedido foi atendido pelo então presidente do STF, Ricardo Lewandowski,
durante o recesso de Natal. Menin recebeu uma decisão favorável em apenas
quatro dias e a lista, considerada um exemplo por entidades como a
Organização Internacional do Trabalho, foi imediatamente desmantelada.
A lista voltou mais enxuta, e não contém mais o nome da MRV. Além disso,
ela também não tem mais o poder de cortar o crédito de ninguém. Se tornou
um mero decorativo.
Quando Michel Temer tentou emplacar uma portaria para atrapalhar o combate
ao trabalho escravo no Brasil, usou um exemplo da MRV para dizer
que os fiscais estavam atuando de maneira exagerada. A MRV, claro, negou
estar por trás disso.
A CNN não quis comentar os problemas em específico, e se resumiu a afirmar
a mim por e-mail que “faz uma auditoria abrangente de todos seus parceiros
de licenciamento. Esse é o caso dos licenciados que vão operar a CNN
Brasil, que têm nosso total apoio".
Rubens Menin fez sua fortuna rapidamente, de forma aparentemente milagrosa.
Em quatro anos, sua empresa saltou do 12º lugar para o primeiro no ranking
das maiores construtoras civis brasileiras, onde permanece até hoje. Em
2014, a Forbes estimou seu patrimônio líquido em
US$ 1,2 bilhão.
Embora Menin defenda valores econômicos liberais em seus textos e
entrevistas, sua fortuna foi feita com financiamento público. A empresa é a
principal construtora do Minha Casa, Minha Vida. Ele opera principalmente
nas faixas 2 e 3 do programa, voltadas à classe média e com financiamento
baseado no FGTS.
Fox News do Brasil
Menin anunciou a
nova estação de televisão ao lado de seu sócio e futuro CEO da CNN Brasil,
Douglas Tavolaro. Por quase 10 anos, Tavolaro atuou como vice-presidente de
jornalismo da Record TV, que se tornou um porta-voz não-oficial do
presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro durante e após as eleições de
outubro.
Depois de um punhado de aparições desastrosas na TV durante a campanha e de
receber uma facada, Bolsonaro decidiu controlar rigidamente o acesso à
mídia e não participou de outros debates.
Sem Bolsonaro, a Record cancelou o debate entre os candidatos que
aconteceria no seu canal, ao contrário de outras emissoras, que levaram os
programas adiante mesmo sem ele. No dia do último debate na Globo, a
emissora do bispo exibiu uma entrevista chapa-branca com Bolsonaro enquanto
os outros candidatos discutiam propostas no outro canal.
A proximidade continuou após as eleições. Entrevistas recheadas de parabéns
ao novo presidente, sem jamais pressioná-lo, foram exibidas na televisão,
sempre sob a supervisão de Tavolaro.
Em Outubro do ano passado, o Intercept publicou uma longa declaração de
um jornalista do site da Record, o R7, que reclamou de novas diretrizes
editoriais para beneficiar a campanha de Bolsonaro. Como resultado, o
R7 publicou um ataque ao Intercept
enquanto um repórter investigativo da TV Record começou a pesquisar uma
matéria mais aprofundada, que nunca foi ao ar.
As relações políticas de Tavolaro não começaram com Bolsonaro. No ano passado, escutas telefônicas da polícia
revelaram suas negociações com Aécio Neves, que iria ajudá-lo a conseguir
verbas de patrocínio da Caixa Econômica Federal em troca da exibição de uma
entrevista com o então-presidente, Michel Temer.
Em março do ano passado, o Intercept revelou que a esposa de Tavolaro,
Raissa Caroline Lima — que era uma assessora bem-paga na Assembléia
Legislativa de São Paulo — viajava regularmente pelo mundo com o marido
durante as votações-chave em que deveria estar presente. O Intercept Brasil
não conseguiu localizá-la em seu escritório. O trabalho remoto para os
funcionários é estritamente proibido na Assembléia, uma medida para
reprimir o uso de funcionários fantasmas. Alguns meses depois, Lima foi
discretamente exonerada de seu cargo.
Nos últimos anos, Tavolaro teria se afastado de algumas das tarefas do
jornalismo cotidiano para ser o co-autor da biografia e de dois roteiros de
filme sobre Edir Macedo. Ele agora parece estar se afastando de Macedo para
lançar a CNN brasileira, uma marca obtida da Turner Broadcasting System por
uma quantia desconhecida. A assessoria de imprensa negou especulações de
que Edir Macedo tenha envolvimento direto no novo projeto.
A Record tenta se aproximar da CNN desde 2007, mas a emissora norte
americana rejeitou suas ofertas, pois não queria ser associada à poderosa
mega-igreja evangélica de Macedo.
Há anos, a direita brasileira tem clamado por sua própria versão da Fox
News, enquanto a Record e SBT deram passos nessa direção, é um sonho que
nunca foi totalmente realizado. A chave para desvendar esse sonho pode
estar na combinação de Rubens Menin e Douglas Tavolaro sob a bandeira da
CNN Brasil.
Nem todos, no entanto, estão convencidos. Ativistas de extrema direita
alinhados com Bolsonaro já foram ao Twitter para criticar a nova rede. “CNN
BRASIL vai contratar 400 jornalistas para difamar a mudança pela qual o
Brasil está passando?”, twittou um funcionário do blog de fake news Terça
Livre. “É o [George] Soros quem vai mandar naquela joça", referindo-se
ao filantropo liberal, um frequente bicho papão em teorias de conspiração
da extrema-direita (o fundo de Soros detém uma pequena participação na
empresa-mãe da CNN). Luciano Hang, o empresário que o
Ministério Público do Trabalho quis multar em R$100 milhões por coagir seus funcionários a votar
em Bolsonaro, também tuitou criticamente sobre o acordo: “Mais uma TV
comunista no Brasil. Alguém pode montar uma Fox?"
Então, será que a CNN Brasil será uma conspiração comunista apoiada por
Soros, tentando acabar com o movimento Bolsonaro? Menin respondeu a Hang: "Luciano,
não caia nessa história." Piero Locatelli (Repórter) e Andrew
Fishman ( Editor Geral)
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