Religião e Poder: Uma relação perigosa
Artigo publicado
originalmente no Correio Braziliense de 21/01/2019, página 11
– Opinião.
Por Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto.
Por Jaime Pinsky: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto.
Para muita gente, a
religião é um conjunto de preceitos respeitados e seguidos com a finalidade de
garantir uma vida futura em lugar mais agradável do que este planeta cada vez
mais quente. Para outros, é uma relação estabelecida com a divindade, qualquer
que seja o nome a ela atribuído. Mas aqui estamos falando de religião como
organização.
Só que a religião
não cria uma organização qualquer: as “verdades” com as quais trabalha não
decorrem de raciocínio lógico, mas sim de dogmas estabelecidos por Deus ou seu
suposto representante na Terra no poder, ou pelo menos na religião vinculada ao
poder, em nome de verdades como estrutura de poder, estabelecida por um grupo
de pessoas em nome de verdades apresentadas como indiscutíveis.
Graças aos que
acreditam nessas verdades, o grupo dirigente se torna poderoso e sozinho (ou em
aliança com dirigentes governamentais) e interfere em setores da vida de cidadãos
que sequer pertencem àquela crença. E é aí que reside o perigo: a religião
trabalha com verdades reveladas, não demonstradas, não frutos da razão.
Sendo promulgadas
por Deus (ou por algum deus), ou por algum seu suposto representante ou
intérprete, essas verdades não podem sequer ser discutidas, quanto mais
contestadas por simples mortais. Além disso, cabe a todo bom militante de uma
religião não apenas segui-la, obedecendo aos dogmas de fé, como ainda buscar
(em diferente medida, dependendo de cada religião) convencer os outros. Com
palavras, se possível. Pela força, se necessário.
Em alguns momentos
da História até que essa obediência desempenhou papel positivo e agregador. Há
cinco mil anos, na Mesopotâmia, os sacerdotes conseguiram juntar dezenas de
milhares de pessoas para atuar em conjunto e domar rios, construir canais,
levantar edifícios e criar as primeiras cidades da humanidade, graças ao culto
comum a deuses e aos reis. De modo mais dramático, o mesmo processo ocorreu no
Egito faraônico, onde os dirigentes se apresentavam como sendo os próprios
deuses.
Sem um trabalho
coletivo nunca uma civilização tão importante e original teria sido levantada
em pleno deserto. O Nilo, no Egito, assim como o Tigre e o Eufrates, na
Mesopotâmia, irrigavam as margens e possibilitavam a atividade agrícola, mas os
territórios eram pobres em madeira, pedra e metais. O trabalho coletivo, sob a
organização de um poder central e a inspiração de divindades poderosas,
transformou aglomerações incipientes em núcleos urbanos e impérios grandiosos,
com comércio ativo, intercâmbio cultural, escrita e contabilidade, além de arte
muito desenvolvida.
Em outros momentos
da História, política e religião estiveram juntas. Diferentes povos da
Antiguidade, tanto a oriental quanto a clássica, tiveram seus próprios deuses,
e os detentores do poder recorriam a eles para arrecadar tributos. Afinal,
pedir dinheiro para o templo e não para o luxo dos governantes sempre soou mais
simpático e tem sido um estratagema amplamente utilizado em todos os
continentes, em toda a História. Mesmo com os hebreus, após a construção do
Templo de Jerusalém (há cerca de 3000 anos), reis se uniram aos sacerdotes para
arrecadar impostos.
Graças aos
profetas, particularmente os chamados profetas sociais (como Amós e Isaias), a
religião passaria de simples monolatria (religião que segue um deus, mas aceita
a existência de outros deuses) a monoteísmo ético, ou seja, a crença em um
único deus que exige um comportamento reto por parte dos seus seguidores. Não
por acaso o monoteísmo profético se deu fora do templo, não dentro dele, fora
da estrutura de poder e até contestando essa estrutura. O monoteísmo ético se
tornaria a base do cristianismo e do islã, que, por sua vez, também fizeram
alianças táticas e estratégicas com o poder político em muitas ocasiões.
O cristianismo,
durante séculos, não se configurava como uma religião própria, mas como uma
espécie de linha alternativa do judaísmo (sua fonte foi a vertente essênica,
como indicam os Pergaminhos do Mar Morto). Escritos dos romanos costumavam
designar as duas religiões como sendo uma só. Aos poucos, o cristianismo
ganharia autonomia, particularmente após o trabalho hábil de Paulo de Tarso,
homem de vasta cultura helenística, que adequou práticas religiosas aos costumes
do mundo greco-romano, como demostra Joseph Klausner em seu livro From
Jesus to Paul. Graças a isso, ao contrário do judaísmo que continua
uma religião específica de um povo, o cristianismo ganha um caráter universal e
está pronto para conquistar o mundo.
Ao liberar a
prática do cristianismo e aceitá-lo, o imperador romano Constantino permitiu
que ele se expandisse rapidamente. Enquanto se expandia, ganhava uma estrutura
burocrática emprestada de Roma, com forte hierarquia. Deixou de ser (apenas) a
religião dos pobres e escravos e se transformou em uma potência à qual os reis
e os senhores feudais precisavam recorrer para legitimar seu poder. Na Idade
Média, bispos e cardeais entronizam reis. A Igreja se apresenta como única
fonte de saber (já que se diz representante de Deus na Terra). Particularmente,
as mulheres que detêm conhecimentos práticos, como, por exemplo, o das plantas
medicinais, são reprimidas fortemente, consideradas bruxas. A alegação: “O
saber que não vem de Deus, via clero, só pode se originar do Demônio”.
Agora o
cristianismo legisla sobre tudo, não apenas sobre o mundo da fé. São da sua
conta as regras de comportamento, os torneios, as práticas sexuais, os direitos
dos proprietários de terras, as fórmulas dos chás curativos, os dias de
trabalho e os de descanso, e todo o resto. E em todo o resto estão muitos
textos clássicos, gregos e romanos, que não deveriam ser divulgados. No máximo,
podiam ser copiados nos mosteiros (e nem todos). Poder religioso e poder
político caminham juntos agora.
Essa aliança
resiste ao fim do sistema feudal e da Idade Média, como podemos verificar na
França monárquica e, mais ainda, na Península Ibérica, onde a Inquisição
prejudicou o desenvolvimento do capitalismo comercial, como explica Antônio
José Saraiva no seu belíssimo livro Inquisição e cristãos-novos.
Esta aliança custaria aos ibéricos a perda da hegemonia – que chegaram a ter no
Atlântico e nas Américas – para os holandeses. Estes não misturavam religião e
poder.
Com o Iluminismo e
as chamadas revoluções burguesas, particularmente a Revolução Francesa,
implanta-se o Estado Nacional moderno com a explícita separação entre Estado e
religião. Isso implica liberdade de culto, mas implica também a não
interferência entre as esferas Fé e Poder. Porém, o conceito ideal só foi posto
em prática em poucos lugares e a aliança entre o poder político e o religioso
continuou. Ela ocorre na Rússia atual, que considera o sanguinário Nicolau I e
sua família (mortos pelos bolcheviques por ocasião da Revolução de 1917) santos
da Igreja Ortodoxa.
Ela ocorre em
países islâmicos, alguns dos quais sequer admitem a construção de templos de
outras denominações em seu território. Em países como o Irã, onde os aiatolás
ainda são a mais alta instância de poder e as mulheres perderam as conquistas
que haviam obtido ao longo do século XX. E ocorre até em muitos países onde
partidos vinculados a diferentes religiões estabelecem alianças eticamente
duvidosas em busca de benefícios que nada têm a ver com a esfera espiritual.
Para o bem do Estado e da própria religião, o melhor é evitar relações
incestuosas entre os dois.
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