Brasil bolsonarista ressignificou o termo “vagabundo”
A
subjetividade fascista que cresce no Brasil não mobiliza o medo de um
inimigo externo, como é comum no hemisfério norte. Nosso inimigo é interno: o
velho conhecido vagabundo.
Todo mundo
conhece muitos vagabundos, mas ninguém se acha um. Vagabundo é sempre o
“outro”. “Nós” somos humanos, do bem, inteligentes, realizadores e dotados da
moral cristã. Tudo que temos é mérito do suor de nosso trabalho, e o que não
temos é porque os “vagabundos” recebem privilégios e mamatas.
Quando
“nós” morremos, a dor é imensa porque nossas vidas importam. “Eles”, os
vagabundos, são menos humanos. São lesados, preguiçosos e pervertidos. Tudo o
que eles possuem vêm de vida fácil. Quando “eles” morrem não há dor e, muitas
vezes, há até comemoração, pois vagabundo bom é vagabundo morto.
“Vagabundo” é
um significante vazio que pode abarcar muita gente: ambulantes, desempregados,
pessoas em situação de rua, pobres, nordestinos, putas, LGBTs, ativistas,
bandidos. O que define o vagabundo não é o trabalho, honestidade ou esforço de
um sujeito, mas relações de poder estruturadas no eixo raça, classe e
ideologia.
Lula é
vagabundo, mesmo tendo estado à frente de um dos governos mais bem-sucedidos e
respeitados internacionalmente da história do país. Bolsonaro – que é político
profissional desde 1989, aprovou dois projetos de lei em sua trajetória e tem
seus três filhos mamando da mesma fonte – não é vagabundo.
A linha que
separa um vagabundo de um humano é muito tênue. Ainda permanece na lembrança o
ano de 1997, quando jovens brancos, privilegiados e filhos de
autoridades tocaram fogo em uma pessoa que dormia na rua e se
espantaram que se tratava de um indígena: “achávamos que era apenas um
mendigo”.
Vinte e dois
anos depois, assistimos a comoção do Brasil com os dez adolescentes que
morreram no incêndio do Flamengo. Por estarem no alojamento do clube,
aquelas vidas se dotaram de propósito e relevância. Mas, se esses mesmos jovens
estivessem em suas casas nas favelas, e a polícia tivesse entrado atirando para
executar a sangue frio, eles seriam apenas “vagabundos” sem verdade ou
humanidade, como ocorreu há poucos dias na chacina que matou 15 pessoas do
Morro do Fallet-Fogueteiro.
As raízes
sociais do vagabundo se encontram na figura do marginal do período colonial.
Nossa história sempre foi cindida entre uma parte branca e “desenvolvida” e
outra parte que se quer colocar para debaixo do tapete: pobre e/ou negra,
considerada atrasada e fora do desenvolvimento econômico.
Importantes
autores do pensamento social brasileiro, como Sandra Pesavento, José Murilo de
Carvalho e Luci Kowarick, entre muitos outros, foram essenciais para entender a
construção social da marginalidade.
Escravos
libertos, ao ocuparem as ruas das cidades brasileiras em busca de trabalho como
ambulantes ou simplesmente ocupando o espaço com formas de sociabilidade como a
capoeira, causavam medo e repulsa. Na nossa mentalidade colonizada, eles não
eram os corpos brancos desejados para circular ao redor dos prédios com
arquitetura europeia.
Para essa parte
da população que ocupara as ruas, a violência sempre foi um projeto de estado
em sua aliança com a elite. Se essas pessoas são marginais – ou seja, não são
parte do Brasil desenvolvido cultivado na imaginação colonizada –, a patrola
estatal pode esmagar, afinal não são grupos reconhecidos como parte da
sociedade.
O caminho que
transformou o marginal em alguém socialmente autorizado a morrer é longo e
resulta de um longo processo de produção midiática hegemônica que sempre tratou
a “marginalidade” como nefasta. O marginal, assim, foi se transformando cada
vez mais em um criminoso ao longo do século 20. No século 21, no Brasil
distópico de Bolsonaro, conjugado com pacote do populismo penal de Sérgio Moro,
o vagabundo é mais que um criminoso: agora ele é também um terrorista.
Um dos maiores
problemas do Brasil é a sua identidade mal resolvida, que faz com que, muitas
vezes, vagabundos não percebem que são vistos enquanto tais.
Eu em diálogo
com uma camelô de Porto Alegre em 2004:
“Oi, Carmen, olha que editorial horrível desse jornal que chama os
camelôs de vagabundos e pede que se instalem câmeras na cidade para vigiarem
vocês”. Ela respondeu-me: “é isso aí! Tem que encher de câmera para mostrar
esses ambulantes vagabundos que não gostam de trabalhar”.
Para mim, que
sabia que ela vendia remédios abortivos falsificados do Paraguai, ouvir aquilo
soava curioso. Esse diálogo, em que ambulantes mais velhos ou estabelecidos
chamavam outros ambulantes mais jovens ou pobres de “vagabundo”, era recorrente
em meu trabalho de campo.
Também era
comum que esses trabalhadores passassem perfume e arrumassem a banca com muito
cuidado para não serem confundidos com “vagabundos”. O problema é que, na
perspectiva da elite, todo camelô, sem discernimento, era vagabundo, e a
polícia deveria ser rígida contra eles. A pancadaria, o cacete e as humilhações
das batidas da polícia sempre foram aplaudidas com certo sadismo.
Anos depois, já
em pesquisa com Lúcia Scalco sobre eleitores de Bolsonaro na periferia da zona
leste de Porto Alegre, uma grande parte de nossos interlocutores (se não uma
maioria, inclusive eleitores do PT) era amplamente a favor da redução da
maioridade penal, de prisões mais duras e da pena de morte para “vagabundos”.
Mauro, 22 anos, uma vez nos mostrou seu primo no presídio jogando futebol e
assistindo Netflix com o dinheiro que chegava das facções: “vocês acham isso
justo? Eu trabalhando honestamente e ele se divertindo?”
Essa é apenas
uma parte da interpretação da história. Da nossa perspectiva que conhecia os
dois lados, nem o primo estava se divertindo na prisão nem Mauro era tão
honesto assim. Intrigava o fato de que muitas pessoas não viam que, pela lógica
ideológica hegemônica, eles poderiam ser os próximos vagabundos. Havia, ali, uma
necessidade de se diferenciar e de se aliar ao padrão, fazendo com que a
identidade social fosse negociada com tensão e ambivalência. Se você acusa
alguém de vagabundo, você se acha menos vagabundo.
O mérito de
Bolsonaro foi ter conseguido atiçar uma ira latente contra os vagabundos. A
elite racista e classista apoia a remoção de toda a articulação de
“vagabundos” – nordestinos, beneficiários do bolsa-família, minorias e
ativistas. Outra parte da população, aflita por muitos medos e perdas, também.
Forjando o
papel da justiça e da ordem militar, Bolsonaro conseguiu tocar no âmago de uma
grande parte da população que acha que a vida é injusta e que os vagabundos
passam bem. Nas páginas da extrema direita, as palavras vagabundos e marginais
são as que mais parecem, especialmente para designar petistas e assaltantes.
Enquanto parte
da esquerda se manteve em sua redoma intelectual ou centrada em suas próprias
disputas, Bolsonaro foi articulando todas as forças obscuras do país, ganhando
espaço, acionando o poder advindo do pânico moral e da disputa do nós contra
eles – o que faz todo o sentido em um contexto de crise econômica, política e
também de segurança pública.
Refiro-me à
esquerda porque vídeos em que Bolsonaro falava atrocidades, associando PT a uma
bandidagem, circulavam amplamente no WhatsApp do Brasil profundo, mas ninguém
do campo progressista viu ou acreditou que seria possível a sua
eleição.
Bolsonaro
começou a aparecer sem parar depois de 2013, especialmente após polêmicas com
Benedita da Silva e Maria do Rosário. Nessa época, ele criou sua página no
Facebook e grande parte de suas postagens são contra vagabundos em uma campanha
que começa a cada a vez mais associar petistas a “marginais vagabundos”.
Em
uma entrevista decisiva que recebeu os holofotes de toda a mídia (que
o ajudou a crescer) em 2014, Bolsonaro usou essas palavras acusatórias sete
vezes em um minuto e meio, dizendo que as cadeias não podiam ser colônia de
férias. E tudo isso associando o PT e o MST a temas como o falso kit gay.
No meio do
vácuo deixado pela crise, em que a narrativa do crime se enche de significado,
apontando culpados e inimigos internos, Bolsonaro atiçou a nossa tradição
sádica mais profunda. E ganhou.
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